Inércia Térmica

A optimização da inércia térmica na região do clima mediterrânico tem sido uma medida largamente implementada na região do clima mediterrânico, ao longo de muitos séculos. São os materiais pesados e maciços que conferem aos espaços interiores uma maior estabilidade e conforto térmico.

A optimização da inércia térmica na região do clima mediterrânico tem sido uma técnica generalizada, ao longo de muitos séculos, para assegurar condições de conforto térmico no interior de edifícios. É certo que, no passado, não existiam os mesmos materiais de construção a que actualmente temos acesso, nem as pessoas viviam as vidas sedentárias que hoje vivem, no entanto, a inércia térmica continua a ter um papel fundamental na criação de um clima interior estável e confortável nas habitações.

A inércia térmica é especialmente relevante em climas sujeitos a grandes amplitudes térmicas em curtos espaços de tempo – uma das características do clima em Portugal. São os materiais pesados e maciços que constituem a inércia térmica dos edifícios e, quando bem aplicados, conferem aos espaços interiores uma maior estabilidade térmica. Como é indicado pela palavra ‘inércia’, estes materiais pesados interagem muito lentamente com as temperaturas do meio que as rodeia e armazenam as respectivas temperaturas médias, porque as temperaturas de pico (quente e frio) não se mantêm durante suficiente tempo para serem acumuladas por estes materiais.

Em Portugal, a temperatura média do clima, durante a maior parte do ano, mantém-se entre os 18 e os 26ºC, contribuindo a inércia térmica, por este motivo, para uma estabilidade do clima no interior e para o conforto.

Uma vez armazenada a temperatura média ambiental, a interacção de um elemento de construção maciço com o clima interior é muito positiva, porque, quando não é obstruída, irradia continuamente para os espaços interiores a mesma temperatura média que armazenou. Para o exterior é essencial que se minimizem as perdas térmicas, pelo que é importante conjugar a inércia térmica com o isolamento térmico, idealmente aplicado de forma contínua e pelo exterior.

Em pleno Verão, todos conhecemos a sensação de frescura quando entramos numa igreja construída com paredes maciças em granito – e, no Inverno, a sensação, também de conforto, em que o interior da mesma está a uma temperatura superior ao frio que faz no exterior. Este é o efeito da inércia térmica em pleno funcionamento. A solução actual não passa, certamente, por construirmos edifícios habitacionais com a inércia térmica de igrejas, também porque as tecnologias e os materiais disponíveis na construção contemporânea dispõem, além desta, de soluções construtivas que optimizam o efeito da inércia térmica e permitem uma interacção positiva com o clima em muitas outras vertentes.

Tudo passa pela construção de edifícios habitacionais com estruturas pesadas (paredes, pavimentos e coberturas), muito bem isoladas termicamente, que permitam uma relação directa (por armazenamento e radiação) com o ambiente interior.{mospagebreak}

Para optimizar o contributo da inércia térmica, é importante evitarmos que os materiais pesados (o betão, os tijolos, os rebocos) sejam predominantemente revestidos com outros materiais leves (tectos falsos, alcatifas, madeiras…). Qualquer destes materiais leves de revestimento funciona como um isolante e interrompe o intercâmbio térmico que se pretende manter entre os materiais com elevada inércia térmica e o ambiente interior. Isto não significa que não seja adequado integrar, numa habitação, um pavimento em madeira, também porque é muito elevado o conforto táctil sentido ao tocarmos um material com baixo grau de inércia térmica, como a madeira. Efectivamente, é importante atingir-se uma porção adequada de intercâmbio directo entre a inércia térmica disponível e o ambiente interior – proporção que deverá integrar os contributos do Engenheiro Térmico.

Para optimizar o desempenho energético-ambiental do edifício, é importante que a inércia térmica seja adaptada e integrada com outras estratégias de optimização do desempenho. Em primeiro lugar está a conjugação da inércia térmica com o isolamento térmico, aplicado de forma contínua e pelo exterior, ou seja, a forma como melhor se alcança o contributo positivo do armazenamento das temperaturas médias do clima que favorecem o conforto no ambiente interior, além de proteger as fachadas do risco de fissurarem. Sabendo que as temperaturas médias vão ser continuamente armazenadas pelos materiais pesados, é importante evitar que os extremos (quente e frio) afectem este armazenamento directamente. Assim, é o isolamento térmico associado à inércia térmica que protege o ambiente interior das grandes amplitudes térmicas, típicas do clima português.

A conjugação da medida “inércia térmica” com a medida “ventilação natural” torna-se especialmente importante durante as noites de Verão, porque permite que o calor acumulado nos materiais pesados seja libertado durante a noite e, pela conjugação descrita, seja restabelecida a capacidade de acumular e absorver o calor excessivo durante o dia seguinte, mantendo o ambiente interior confortável. É possível evitar, deste modo, a saturação da inércia térmica disponível por acumulação de calor. Este ciclo, quando bem gerido, pode conferir, durante o Verão, o conforto que se deseja nos espaços interiores de uma habitação.

A cor das superfícies condiciona igualmente a sua capacidade de absorção térmica e de reflexão da luz. Adaptar a inércia térmica também à cor com a qual é revestida a sua superfície, em contacto directo com o ambiente interior, influencia também o seu comportamento, na medida em que as cores claras reflectem melhor a radiação (por absorverem menos) e são ideais para climas mais quentes, como o Centro e o Sul de Portugal, enquanto as cores mais escuras absorvem mais radiação, o que aumenta a temperatura nos espaços interiores, pelo que a sua adopção é recomendada em climas mais frios, como no Norte de Portugal. Conjugar a definição das cores que revestem áreas de inércia térmica elevada com a incidência sazonal dos raios solares, é mais um contributo para a optimização do conforto. Por exemplo, se uma parede interior, sobre a qual os raios solares apenas incidem no Inverno (e é possível determinar esta característica em projecto, calculando o ângulo e a orientação solares), for pintada com uma cor mais escura, a sua eficiência de armazenamento e libertação de calor no Inverno, quando o mesmo é desejado, poderá aumentar.

A inércia térmica implica a utilização de materiais pesados na construção – betão, tijolos, rebocos, estuques, pedra… – materiais que, dado o modo como são aplicados, exigem tempos de secagem que tornam a construção mais lenta. Na óptica do curto prazo, em que a pressão financeira é grande para o produto imobiliário ser rapidamente comercializado, os tempos de construção tornam-se uma importante condicionante a minimizar e, por sua vez, torna-se irresistível a tentação de construir edifícios leves (com estruturas metálicas ou em madeira). É de extrema importância que sejam optimizados os prazos de execução em obra para soluções construtivas que ofereçam a inércia térmica adequada e necessária neste clima, para se evitar que sejam substituídas por soluções que não contribuem para o bom desempenho energético do edifício.

Em toda a faixa de clima mediterrânico, a inércia térmica é uma medida essencial para a optimização do desempenho energético-ambiental de edifícios habitacionais, porque constitui uma fonte de energia térmica estabilizante durante toda a duração dos edifícios.